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O PIOR DE DOIS MUNDOS

O PIOR DE DOIS MUNDOS

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Viver ciclos é inevitável. Rir de histórias engraçadas, falar de fatos inesquecíveis, projetar o futuro, bastante saudável, mas a pessoa que vive em função da próxima praça é muito infeliz! Não vive o momento. Se parar pra pensar, é uma coisa estúpida esperar algo que não vai chegar. Além de McFly em ‘De Volta para o Futuro’, e tantos filmes e literaturas de ficção onde algum cientista de cabelos brancos e longos inventa uma máquina e transporta seus passageiros para o passado ou futuro, é possível alguém realmente viajar pelo tempo? Imagine se os pensamentos tivessem o poder de literalmente nos transportar para o passado ou futuro, conforme nossas ansiedades e frustrações.

Primeiro que, dos tempos gramaticais, o presente seria o menos populoso. Quem quer viver um dia após o outro? Imagine a Avenida Paulista numa segunda-feira as 18h00min com apenas algumas pessoas atravessando a rua e dois carros com o rádio ligado esperando o sinal abrir. Ou, a praia de Copacabana numa manhã de verão com duas barracas e quatro ou cinco pessoas caminhando com sentimentos oceânicos. Às vezes, no transito louco de Goiânia penso: ‘nesses milhares de carros, quantos passageiros estão aqui de fato?’ Ontem alguém buzinou pra mim muito nervoso, o vidro estava fechado, mas vi umas cobrinhas, caveiras, lagartos, calangos e gorilas saindo de sua boca. Tive a impressão que o infeliz motorista estava numa máquina do tempo modelo 2011 com ar condicionado, direção hidráulica vindo dalgum bairro iluminado do futuro indo pra alguma rua escura do passado. Desejei-o boa viagem, permaneci por aqui mesmo.

Segundo, não teria ninguém no passado ou futuro também, pois o ansioso-saudoso não consegue estar, ou vai ou foi, ou será ou era. Sempre esperando ou relembrando. Tenho um amigo que sempre que nos encontramos conta-me as mesmas histórias fantásticas de seu passado maravilhoso. Deveria haver um Código de Trânsito dos Tempos, com sinal, placas e faixa de pedestres. Se você acha que o movimento nas ruas dos grandes centros está caótico, inúmeras são as colisões na auto estrada entre os dois mundos, ninguém sai ileso, sem estatísticas, porém, milhares de mortos.

Terceiro, seria uma bagunça total, imagine o passado que nunca foi presente, o presente não presente, ou, viver o futuro que nunca chega? Pense num casal dormindo na mesma cama, distantes não por incompatibilidade de gênios, mas divididos por incompatibilidade de tempos. E aquela mãe, no passado, sentada à mesa do almoço com o filho no futuro? Só de pensar nessas coisas dá um nó na cabeça, mas é exatamente isso que as pessoas fazem. Não é, portanto de se admirar, que muitos vivam esse nó em seu dia a dia, tentando freneticamente desatar esse nó cego surdo mudo entre o ‘foi’ e o ‘nunca será‘. Mario Quintana disse algo que nunca esqueço: “o passado não reconhece seu lugar, está sempre presente”.

Muitos buscam o melhor de dois mundos, mas isso não existe, ou tem o melhor do presente, ou a vida será a pior de todos os mundos. Na finitude de sua alma e nascimento de mais uma noite, não enxergam a beleza do sol passando sobre seus fulgurantes ombros o cobertor do horizonte ao alcance de mãos humanas. Inverteram a expressão ‘nada como um dia após o outro’ para ‘qualquer coisa é melhor que um ontem após um amanhã’ (…)

Terceiro capítulo: A noite passou…

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